15
Abr
09

[Filme] Divã (Divã)

diva

”Por mais teatral que seja, não deixa de ser uma boa escolha narrativa já que o filme se assume dessa forma”

Em certa altura do filme, o público no cinema fica sem ar de tanto rir em uma cena onde duas amigas conversam sobre masturbação feminina. Um pouco depois, o silêncio toma conta da sala e todos sentem-se comovidos pela personagem que tem de enfrentar uma dura perda.

 

Essa transição entre o riso barulhento e o triste silêncio do público pode ser chamada de tragicomédia – e também nos dá uma idéia dos hiatos que pontuam Divã.

Baseado em um livro de auto-ajuda, chega aos cinemas de todo o Brasil o novo trabalho do diretor José Alvarenga Jr., o mesmo de Os Normais – O Filme e escrito para as telas pelo ator e roteirista de TV, Marcelo Saback.

A idéia inicial é bastante interessante, uma vez que o filme assume o tom de auto-ajuda e declaradamente quer passar uma mensagem ao público.

 

Mercedes (a maravilhosa Lília Cabral) é uma professora de matemática, casada e com dois filhos crescidos, que, no auge dos 40 anos decide que precisa de auto-conhecimento e por mais algumas razões desconhecidas, tanto para ela quanto para o público, começa a freqüentar um analista – daí o título do filme.

A medida que o tempo passa, as consultas começam a ser não com o analista, mas com ela mesma, e o diretor por sua vez, trata de fazer com que essas cenas sejam na verdade uma conversa com o público.

Por mais teatral que seja, não deixa de ser uma boa escolha narrativa já que o filme se assume dessa forma e nas mãos de Lília Cabral todas as sequencias dos monólogos ficam hipnóticas. O problema é que uma boa idéia não faz um filme ser bom, e quando a direção tem que mostrar seu potencial cinematográfico acaba por explicitar várias falhas do texto.

A pretensão do roteiro só não fica mais evidente pela naturalidade que a direção adota em alguns momentos, e a direção funciona muito melhor quando não tenta manipular cenas com soluções visuais – pseudo-dramáticas e de gosto duvidoso, por sinal. Isso contradiz todo o estilo narrativo que o diretor havia adotado: de sufocantes closes nas sessões de análises até a câmera na mão no ambiente doméstico, dando aos atores uma liberdade em cena muito maior e buscando claramente um certo realismo. Nada de original, mas uma escolha bastante adequada.

Quando o diretor trai sua própria narrativa, o filme perde sua identidade. Não são nada necessários, por exemplo, manipular os takes que encerram as cenas com os atores posados, afim de evidenciar algo que já estava ali. E antes que pense que eu não acho uma opção válida, fique sabendo que considero tais ferramentas muito interessantes, mas repito, adequação é importantíssima para um bom resultado final e aqui essas manipulações definitivamente não casam com o resto – vide a cena em que ela revê a fita de casamento, além de desnecessário, roteiro e direção pecam por não acreditar em nuances.

O texto, por sua vez, tem momentos inspiradíssimos mas peca pelo exagero e cria alguns personagens que beiram o estereótipo. Piadas fáceis e preconceituosas não se encaixam com a trama que caminhava até então muito bem.

Para fazer o público rir, Saback não economiza na visão estereotipada do sexo masculino, na ridicularização de homossexuais, do sexo feminino como um todo e, quando o texto excede na tragicomédia, nem a pobre da protagonista escapa de piadinhas desnecessárias e constrangedoras.

 

Mas é justamente a inserção do humor tragicômico, em doses certas, que dão ao filme seus melhores momentos e fazem a trama caminhar por uma narrativa segura atendendo as propostas e resolvendo satisfatoriamente seus conflitos.

Quando o roteiro é inteligente, usa os personagens coadjuvantes para confrontar Mercedes e coloca-la em situações decisivas: seu casamento de 20 anos com Gustavo (José Mayer) está se desgastando e flerta com o divórcio, ela então descobre que ainda pode causar atração quando conhece o irmão mais velho de uma aluna, Theo (Reynaldo Gianecchini). Também é usada de maneira esperta a personagem Monica (Alexandra Richter), a melhor amiga, que faz um contraponto com Mercedes. Ela é de longe o personagem mais interessante depois da protagonista: enquanto Mercedes fica cada vez mais liberal em busca por sua emancipação como mulher, Monica é uma dondoca cujo único interesse é cuidar de sua família e o único homem pelo qual ela sente atração é o próprio marido (Eduardo Lago) – e ponto positivo pro texto por não faz juízo de valor dela.

Todas as mudanças que esses personagens causam na vida de Mercedes culminam em auto-descobertas que ela divide com o analista/público.

O elenco é extremamente irregular, pois, enquanto Cabral e Richter dão um verdadeiro show, o elenco masculino erra feio, ora pela falta, ora pelo excesso.

Mayer está insosso; Lago, nas poucas cenas em que aparece, soa tão artificial que consegue comprometer; Cauã Reymond, em uma rápida participação, exagera ao interpretar um jovem descolado; e fica claro que o sucesso de Gianecchini deve-se única e exclusivamente pela beleza, já que até o charme de outrora ele perdeu, restando apenas apatia e inexpressividade;

Mas reservo alguns parágrafos para o maior trunfo do filme, uma atriz que faz por merecer o título de Estrela e honra sua classe: Lília Cabral.

É uma enorme satisfação ver uma atriz de seu porte tendo um filme todo para si e melhor ainda é ver ela respondendo com maestria a todas as exigências de sua personagem.

Nuances precisas, versatilidade total, carisma incontestável… Lília brilha em todos os momentos, até mesmo quando a direção falha ou suas frases não foram bem escritas. Pode-se dizer que ela carrega, por diversas vezes, o filme nas costas – e o faz maravilhosamente bem. Ela some no personagem, se emociona verdadeiramente com a cena, faz o público gargalhar.
Em determinada seqüencia, flagramos Mercedes alterada pelo uso de certa substância ilícita. O público perde o fôlego de tanto rir – não pela situação, mas pelo que Lília faz na cena. É hilário, e ao mesmo tempo monstruoso de bom!

Lília Cabral firma-se como uma das maiores e mais brilhantes atrizes brasileiras, uma das grandes atrizes do cinema, afinal. Perfeita!

Divã é, enfim, um bom filme que não escapa das suas falhas e leva tombos por suas pretensões mas ao mesmo tempo consegue ser inteligente, sútil, hilário e merece ser visto, sobretudo, pela acachapante presença e atuação da atriz principal. O filme realmente é pontuado por altos e baixos, porém essas eventuais falhas são engolidas pelo talento de Lília Cabral.

311
(bom)

Para conferir fotos, vídeos, curiosidades, notícias e mais sobre o filme: www.xcine.com.br/filme_diva.html


25 Respostas para “[Filme] Divã (Divã)”


  1. 1 luiza
    Abril 24, 2009 às 11:34 pm

    oi, eu gostaria de baixar esse filme, me consegues o link?

    • Abril 26, 2009 às 1:44 am

      Luiza, o blog n trabalha com downloads :/
      alem do mais, Divã e um filme nacional – download vai demorar um pouco pra sair, melhor mesmo ir no cinema :)

      • 3 luiza
        Abril 26, 2009 às 6:44 pm

        A mas muito obrigada mesmo assim. é que na minha maravilhosa cidade ainda nao esta passando no cinema hehehe obrigada!

  2. Abril 25, 2009 às 12:31 pm

    Vou ao cinema assistir este filme hoje.
    Também escrevo sobre filmes no meu blog, dá uma passada lá e deixe seus comentários.
    Abraço

  3. Maio 1, 2009 às 4:15 am

    Oi amigo , vou assitir esse filme domingo , obrigado pela dica , sua análise sobre o mesmo foi de extrema importância pra minha decisão de ir ver o filme !”

    • Maio 1, 2009 às 10:55 pm

      Stela, vlw mesmo, seja bem vinda,
      no caso, se quer acompanhar mais cedo entra no nosso site, la as coisas são lançadas com antecedÇencia

      http://www.xcine.com.br

  4. 7 regina
    Maio 2, 2009 às 12:15 am

    Um filme muito engraçado, pra se divertir mesmo. Pra refletir também.
    Ele tem um porém, o fundo musical em algumas cenas tão alto, que muitas frases não se entendia.

  5. 8 Hector Rocha
    Maio 4, 2009 às 11:54 am

    Eu vi o filme! Assustador… Uma literal apologia aos principios morais da sociedade brasileira encarados como algo simplorio e acessivel! O que um adolescente em fase de formação irá tomar como base familiar através deste filme?

    Há simplesmente um incentivo a prosmiscuidade, a compra compulsiva feminina e ao divorcio é incrivelmente tratado como uma banalidade…

    Onde vão nossos filhos e amigos? Querem todos chegar ao baixo escalão da sociedade sem principios e valores familiares, morais e religiosos?

    Vale Refletir…

  6. 9 Marina
    Maio 5, 2009 às 6:51 pm

    ah assisti divã ontem, é muito bom :)

    • Maio 14, 2009 às 12:14 am

      pow vc sabe me dizer a partir d equantos anos?

      • Maio 14, 2009 às 2:18 am

        Anne, se tivesse paciência pra pelomenos olhar o tópico ia achar o link com as informações do filme,

        a censura e 14 anos

  7. 12 assistente
    Maio 14, 2009 às 7:35 pm

    Divã rmvb, Divã download,

    vc coloca tag de download e no comentario a menina chegou aqui porque queria download

    esse site não é confiável

    • Maio 14, 2009 às 9:39 pm

      ela chegou perguntando a censura do filme,
      eu coloco tag de download, mas apenas pra chamar a atenção.

  8. 14 jéssica
    Maio 24, 2009 às 1:56 am

    acabei de chegar do cinema… esse filme é SHOW
    vejam, vale mto a penaa =]

  9. 15 Maia
    Maio 26, 2009 às 7:39 am

    Cara,
    É muito legal eu blog, mas não é bom usar tags de coisas que vc não oferece, dá a impressão de que vc quer que as pessoas apenas cliquem para entrar no site e não se importa se as pessoas que fazem isso, façam pelo conteúdo do mesmo. Vc tem conteúdo muito bom, não precisa fazer isso.

    Abraços,
    Parabéns pelo Blog.

    • Maio 27, 2009 às 12:47 am

      Maia, infelizmente e preciso, tenho que arriscar para que pelomenos algumas pessoas descubram o site, e que infelizmente divulgar um site na internet tem sido bem difícil e eu ja estou perdendo um pouco da paciência, usando tags para download e errado com o link ou sem o link, mas infelizmente tenho q fazer. Caso contrário, vc n teria descoberto o site :)

  10. 17 Giba
    Junho 10, 2009 às 12:56 am

    Mas não adianta descobrir o site e ver que ele não cumpre o que propõe. Afinal as tags existem para facilitar a categorização e busca. A pessoa acaba saindo do site com raiva, mesmo que o conteúdo seja interessante…

    Olha qtos estão reclamando, acha q eles vão navegar no site mesmo após essa mentira?

  11. Junho 10, 2009 às 10:30 am

    so tem um reclamando¬¬, mas relaxa, ja n estou mais colocando as tags

  12. Junho 10, 2009 às 10:30 am

    alem do mais Download e ilegal :)

  13. 20 mara
    Junho 25, 2009 às 3:49 pm

    o filme é realmente maravilhoso..Ri e chorei.
    L. Cabral está maravilhosa.
    ;)

    • 21 Itala
      Setembro 8, 2009 às 5:48 pm

      num sei o q vcs acharam de interesante nisso

  14. 22 celeste
    Julho 1, 2009 às 2:57 am

    assisti ao filme, e hj comprei o livro e o devorei numa tarde, maravilhoso, reflete o que sinto no momento, faz pensar, rir e chorar, enfim, completo.

  15. 23 Itala
    Setembro 8, 2009 às 5:49 pm

    esse filme num é Tão legal assim ñ

  16. 24 PIETRA :)
    Setembro 24, 2009 às 12:33 am

    ameeeei o filme ! a mercedes tem um jeito tão diferente de lidar com as das coisas vida, qe me deixou fascinada, é assim qe deve ser mesmo, devemos ser mais racionais e menos sentimentais ! ;*

  17. 25 Moaci Jr
    Outubro 22, 2009 às 9:05 pm

    Incrível surpresa tive hoje ao assistir Divã, já esperava muito do filme, mas ele ainda me surpreendeu, pelo olhar de Lilian Cabral e de sua personagem Mercedes, pela mensagem de “e a vida para mim foi isso?”, e principalmente pela coragem de mudar e procurar o que realmente nos faz feliz.


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