
”Por mais teatral que seja, não deixa de ser uma boa escolha narrativa já que o filme se assume dessa forma”
Em certa altura do filme, o público no cinema fica sem ar de tanto rir em uma cena onde duas amigas conversam sobre masturbação feminina. Um pouco depois, o silêncio toma conta da sala e todos sentem-se comovidos pela personagem que tem de enfrentar uma dura perda.
Essa transição entre o riso barulhento e o triste silêncio do público pode ser chamada de tragicomédia – e também nos dá uma idéia dos hiatos que pontuam Divã.
Baseado em um livro de auto-ajuda, chega aos cinemas de todo o Brasil o novo trabalho do diretor José Alvarenga Jr., o mesmo de Os Normais – O Filme e escrito para as telas pelo ator e roteirista de TV, Marcelo Saback.
A idéia inicial é bastante interessante, uma vez que o filme assume o tom de auto-ajuda e declaradamente quer passar uma mensagem ao público.
Mercedes (a maravilhosa Lília Cabral) é uma professora de matemática, casada e com dois filhos crescidos, que, no auge dos 40 anos decide que precisa de auto-conhecimento e por mais algumas razões desconhecidas, tanto para ela quanto para o público, começa a freqüentar um analista – daí o título do filme.
A medida que o tempo passa, as consultas começam a ser não com o analista, mas com ela mesma, e o diretor por sua vez, trata de fazer com que essas cenas sejam na verdade uma conversa com o público.
Por mais teatral que seja, não deixa de ser uma boa escolha narrativa já que o filme se assume dessa forma e nas mãos de Lília Cabral todas as sequencias dos monólogos ficam hipnóticas. O problema é que uma boa idéia não faz um filme ser bom, e quando a direção tem que mostrar seu potencial cinematográfico acaba por explicitar várias falhas do texto.
A pretensão do roteiro só não fica mais evidente pela naturalidade que a direção adota em alguns momentos, e a direção funciona muito melhor quando não tenta manipular cenas com soluções visuais – pseudo-dramáticas e de gosto duvidoso, por sinal. Isso contradiz todo o estilo narrativo que o diretor havia adotado: de sufocantes closes nas sessões de análises até a câmera na mão no ambiente doméstico, dando aos atores uma liberdade em cena muito maior e buscando claramente um certo realismo. Nada de original, mas uma escolha bastante adequada.
Quando o diretor trai sua própria narrativa, o filme perde sua identidade. Não são nada necessários, por exemplo, manipular os takes que encerram as cenas com os atores posados, afim de evidenciar algo que já estava ali. E antes que pense que eu não acho uma opção válida, fique sabendo que considero tais ferramentas muito interessantes, mas repito, adequação é importantíssima para um bom resultado final e aqui essas manipulações definitivamente não casam com o resto – vide a cena em que ela revê a fita de casamento, além de desnecessário, roteiro e direção pecam por não acreditar em nuances.
O texto, por sua vez, tem momentos inspiradíssimos mas peca pelo exagero e cria alguns personagens que beiram o estereótipo. Piadas fáceis e preconceituosas não se encaixam com a trama que caminhava até então muito bem.
Para fazer o público rir, Saback não economiza na visão estereotipada do sexo masculino, na ridicularização de homossexuais, do sexo feminino como um todo e, quando o texto excede na tragicomédia, nem a pobre da protagonista escapa de piadinhas desnecessárias e constrangedoras.
Mas é justamente a inserção do humor tragicômico, em doses certas, que dão ao filme seus melhores momentos e fazem a trama caminhar por uma narrativa segura atendendo as propostas e resolvendo satisfatoriamente seus conflitos.
Quando o roteiro é inteligente, usa os personagens coadjuvantes para confrontar Mercedes e coloca-la em situações decisivas: seu casamento de 20 anos com Gustavo (José Mayer) está se desgastando e flerta com o divórcio, ela então descobre que ainda pode causar atração quando conhece o irmão mais velho de uma aluna, Theo (Reynaldo Gianecchini). Também é usada de maneira esperta a personagem Monica (Alexandra Richter), a melhor amiga, que faz um contraponto com Mercedes. Ela é de longe o personagem mais interessante depois da protagonista: enquanto Mercedes fica cada vez mais liberal em busca por sua emancipação como mulher, Monica é uma dondoca cujo único interesse é cuidar de sua família e o único homem pelo qual ela sente atração é o próprio marido (Eduardo Lago) – e ponto positivo pro texto por não faz juízo de valor dela.
Todas as mudanças que esses personagens causam na vida de Mercedes culminam em auto-descobertas que ela divide com o analista/público.
O elenco é extremamente irregular, pois, enquanto Cabral e Richter dão um verdadeiro show, o elenco masculino erra feio, ora pela falta, ora pelo excesso.
Mayer está insosso; Lago, nas poucas cenas em que aparece, soa tão artificial que consegue comprometer; Cauã Reymond, em uma rápida participação, exagera ao interpretar um jovem descolado; e fica claro que o sucesso de Gianecchini deve-se única e exclusivamente pela beleza, já que até o charme de outrora ele perdeu, restando apenas apatia e inexpressividade;
Mas reservo alguns parágrafos para o maior trunfo do filme, uma atriz que faz por merecer o título de Estrela e honra sua classe: Lília Cabral.
É uma enorme satisfação ver uma atriz de seu porte tendo um filme todo para si e melhor ainda é ver ela respondendo com maestria a todas as exigências de sua personagem.
Nuances precisas, versatilidade total, carisma incontestável… Lília brilha em todos os momentos, até mesmo quando a direção falha ou suas frases não foram bem escritas. Pode-se dizer que ela carrega, por diversas vezes, o filme nas costas – e o faz maravilhosamente bem. Ela some no personagem, se emociona verdadeiramente com a cena, faz o público gargalhar.
Em determinada seqüencia, flagramos Mercedes alterada pelo uso de certa substância ilícita. O público perde o fôlego de tanto rir – não pela situação, mas pelo que Lília faz na cena. É hilário, e ao mesmo tempo monstruoso de bom!
Lília Cabral firma-se como uma das maiores e mais brilhantes atrizes brasileiras, uma das grandes atrizes do cinema, afinal. Perfeita!
Divã é, enfim, um bom filme que não escapa das suas falhas e leva tombos por suas pretensões mas ao mesmo tempo consegue ser inteligente, sútil, hilário e merece ser visto, sobretudo, pela acachapante presença e atuação da atriz principal. O filme realmente é pontuado por altos e baixos, porém essas eventuais falhas são engolidas pelo talento de Lília Cabral.

(bom)
Para conferir fotos, vídeos, curiosidades, notícias e mais sobre o filme: www.xcine.com.br/filme_diva.html
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